“Transformação Digital hoje é pouco. Planeje a Transformação Cognitiva da sua empresa”

As “B Corp’s”​ como gênese do novo Capitalismo

O alcance da pandemia em seus 3 principais eixos, saúde, abastecimento e consumo, nos trouxe à consciência o fato de que estamos mais conectados do que imaginávamos, ou seja, ou todos temos sucesso e desenvolvimento ou todos teremos problemas.

 Uma das mais ações mais afirmativas deste período foi tomada pela Europa, com a federalização da dívida do Bloco Econômico Europeu, liderada pela tradicionalmente austera Alemanha. Esta mesma Alemanha avançou em medidas de proteção da renda básica, algo que se disseminou por todo o mundo, inclusive no Brasil, na forma dos coronavouchers.

 A recuperação do pensamento econômico Keynesiano, em todos os aspectos, pode ser entendida como uma alternativa ao pensamento dominante dos últimos 70 anos, com foco em maximização do lucro das empresas e da remuneração dos seus “shareholders”. Milton Friedman talvez tenha resumido esse pensamento na sua frase “Há apenas uma responsabilidade social das empresas – usar seus recursos e engajar-se em atividades desenhadas para aumentar seus lucros”.

 Não podemos negar o avanço dos ganhos econômicos às famílias trazidos por este modelo, ainda que em velocidades e intensidades distintas. Nos Estados Unidos, o grande ganho se deu imediatamente após a Segunda Grande Guerra, enquanto na Ásia o avanço se deu no fim do século passado.

 Porém foi justamente nos Estados Unidos que o modelo demonstrou primeiro sua falência. Os ganhos econômicos para as famílias se deram até a grande crise do petróleo, em 1973. A partir daí, os ganhos dos 5% mais ricos seguiram acelerando, enquanto o resto da sociedade via seus ganhos se estagnarem. A migração das fábricas para países mais baratos trouxe aumento nas margens das empresas, mas também perda de emprego e renda, parcialmente compensados pela queda no custo das mercadorias.

 Com isso, o “American Dream”, um dos ícones do “soft power” americano foi afetado. Hoje, uma pessoa nascida em uma família de baixa renda nos Estados Unidos demora um pouco mais de 5 gerações para atingir a renda média do país (no Brasil, são 9 gerações…). Os 10% mais ricos concentram mais de 70% da riqueza, enquanto os 50% mais pobres concentram menos de 5%.

 No entanto é no próprio Capitalismo que se encontra a resposta. Ainda olhando dados americanos, vemos que a Receita do Governo é de US$3.1 trilhões, a das ONG’s em todas as suas formas atinge US$1.2 trilhão, enquanto a Receitas das empresas é de US$20.1 trilhões. Isso demonstra o poder que temos para repensar a distribuição da riqueza e prosperidade por toda a sociedade, pensamento que aliás foi apresentado há 36 anos por Edward Freeman, em seu livro “Strategic Management: A Stakeholder Approach”. Uma visão mais atualizada foi lançada em 2007, já levando em conta a falta de confiança em governos, a influência da China, a preocupação ambiental e a influência tecnológica, no livro “Managing for Stakeholders” (https://www.getabstract.com/en/summary/managing-for-stakeholders/9351?dfs=lnmzwqkfbjctlbihgkiiecbkqescek&rf=WFQVSBTWFH).

 Nesse sentido, o movimento de certificação das “B Corps” nos Estados Unidos é o que considero hoje o mais significativo. Conforme citado por Ryan Honeyman em seu livro de 2019 chamado “The B Corp Handbook”, as “B Corporations” querem desenvolver uma nova visão econômica, onde a empresa que atinge o topo não é necessariamente a melhor do mundo, mas a melhor para o mundo.

 A certificação é feita de forma independente pelo “B Lab” e inicia-se com uma autoavaliação das candidatas, na qual são considerados 5 aspectos: as práticas em relação aos colaboradores (qualidade de vida e progresso financeiro), contribuição à comunidade, impacto ao meio ambiente, sustentabilidade das práticas gerenciais e, não menos importante, como a empresa atende e protege seus clientes. Após isso, a empresa precisa aderir a um código de transparência, responsabilidade e apoio à comunidade das “B Corps”.

 Esse movimento iniciou pequeno, com empresas médias e talvez menos conhecidas, e sua coerência foi testada durante a pandemia, como podemos imaginar. Porém a grande notícia é que grandes empresas começam a aderir, como a Danone e a multinacional brasileira Natura, o que poderão acompanhar no excelente artigo “The B Corp Movement Goes Big” (https://ssir.org/articles/entry/the_b_corp_movement_goes_big#), o qual recomendo a leitura.

 Mas é lógico que tudo isso tem um custo à empresa e, na minha visão, aí está o “pulo do gato”. Uma “B Corp” poderá ter tanto sucesso em sua missão quanto todo o seu ecossistema o tiver, portanto é importante nos conscientizarmos que isso não significa uma empresa leniente ou com padrões de desempenho menores que outras.

Para deixar isso mais claro, cito Will Weisman, um dos grandes expoentes da Singularity University, que redefiniu o papel das empresas sobre a definição “The Shared Prosperity Organization” ou “Empresa que Compartilha sua Prosperidade”. Na sua visão, a prosperidade compartilhada ocorre quando todos contribuem e recebem valor compartilhado para produzir progresso significativo.

Destaco 2 elementos dentro dessas visão: a) todos devem contribuir para receber, e b) a intenção é gerar progresso significativo da organização. Assim como dizem que “se você quer arrumar o mundo, arrume antes a sua cama”, o fato é que se queremos um mundo melhor e com valor compartilhado, precisamos gerar esse valor e isso é responsabilidade de cada um de nós em nossas atividades diárias. É hora de fazermos nossa autoavaliação: estou gerando mais valor a cada dia?

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